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O Terapeuta e a Direção Espiritual

Foto do escritor: Silvana Venancio
Silvana Venancio
5 de fev.
3 min de leitura

    Muita religião e muito barulho por nada. Pouca interioridade, muita pressa e excesso, não saber por onde ir, que caminhos trilhar, viver com dúvidas, confusão mental, falta de sentido e sensação de vazio é assim que muitos religiosos vivem. Mas não deveria ser o contrário? A religião deveria trazer sentido para harmonizar o mundo interno e externo das pessoas.

    O mais interessante é que vivemos num tempo onde o mundo está cheio de religiões. No  Brasil, 90, 7 por cento das pessoas se identificam com alguma religião ou crença. Mas esses números não se traduzem em uma vida com sentido e propósito, seja pelo bem estar pessoal ou coletivo.

       Thomas Merton, monge trapista, místico e escritor, teoriza sobre essas questões, com a seguinte indagação: “que adianta a religião sem direção espiritual, sem quaisquer meios de graça, exceto uma oração eventual e algum vago sermão?”. O que adiante uma religião sem símbolo, sem sacramento, sem qualquer meio visível que representa uma ponte entre o mundo interno e externo. 

Essa religião, criticada por Merton, é vazia de sentido por não apresentar um caminho de espiritualidade que seja pessoal, que tenha uma escuta individual e não apenas uma cartilha de comportamentos, ideias e crenças que devem ser aplicadas a qualquer pessoa, sem que seja respeitado o contexto de vida pessoal. É neste sentido, que ele questiona: o que adianta uma religião sem direção espiritual? Temos aqui um paradoxo, bem interessante. Ao mesmo tempo que observamos uma religião pasteurizada, que gera fieis homogeneizados, existe ao mesmo tempo um individualismo solitário que insiste em acreditar que é possível lidar com conteúdos internos sozinho. 

O individualismo nos faz acreditar que somos donos do nosso próprio destino e que somos verdadeiramente livres para tomar decisões viciadas que nos levam sempre pelos mesmos caminhos.  Isso acontece por  falta de reconhecimento do poder do inconsciente. Para Carl Jung, o ser humano em muitos momentos, não tem consciência de que é direcionado por forças do coletivo e do inconsciente.  Essas  forças tão intensas e poderosas nos governam e se apresentam como destino, pautando nossas decisões, gostos e escolhas. 

A direção espiritual, na realidade dos monges, ocupa um papel especial de escuta e discernimento para lidar com os vícios da alma. Como não somos monges, na ausência desse diretor, um terapeuta pode exercer essa função.  Nem o diretor espiritual ocupa o lugar do terapeuta e nem o terapeuta ocupa o lugar da direção espiritual. O terapeuta é alguém que possui uma escuta ativa e amorosa, assim como o diretor espiritual. A boa notícia é que a terapia é acessível para todas as pessoas, religiosas ou não. 

A escuta é fundamental nesse processo, nela o terapeuta irá ajudar o paciente/cliente a escutar a própria alma. Nesse processo de escuta da alma, o terapeuta auxilia no processo de discernimento do caminho, na ampliação da consciência e no encontro com a sombra. A ampliação da consciência permite que o indivíduo lide com as questões que emergem do inconsciente, que pautam de modo invisível, os comportamentos, os sentimentos e as escolhas. Num mundo secularizado, onde a religião se tornou um assunto intimista sem a necessidade de transformação pessoal, a psicologia junguiana se apresenta como uma boa alternativa para guiar mulheres e homens nos caminhos da alma, da interioridade e no encontro de si mesmo. 


Silvana Venancio

Doutora em Teologia e Terapeuta Junguiana


 
 
 

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